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Quinta-feira, 9 de outubro de 2014
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Deni

Estado: AM.
População: 875

Os Deni compreendem mais de 600 tribos indígenas que habitam uma planície entre os Rios Purus e Juruá, localizados no estado brasileiro do Amazonas, 7-10 dias de barco da capital do estado, Manaus. Considerados como Tribo Arawa, os Deni são parte do braço Aruak. A primeira menção aos Deni aparece no relatório SPI de 1942.

Tapa, um dos pataharu (chefes ou líderes, dependendo da interpretação dada à palavra) da tribo Vila Visagem, conta sua história da nação Deni - que ele chama de Madija Deni:
“Os Deni estão divididos em grupos ou clãs. Cada clã tem certa autonomia política, possuindo sua própria auto-identidade. O antigo habitat dos Bukure Deni era o Rio Aruá, afluente do Cuniuá. Os Kuniva Deni subiram o rio, vindo do Baixo Cuniuá - muitos deles morreram de sarampo. Hoje, os Kuniva Deni estão misturados e vivem nas proximidades do Riacho Cujubim. O habitat dos Minu Deni fica perto do riacho Kurabi, no Xeruã; muitos também morreram de sarampo. O antigo habitat dos Varasa Deni do Cuniuá era no Xeruã. Os Hava Deni também vieram do Rio Xeruã e se misturaram com os Kuniva Deni. O antigo habitat dos Madija Deni compreendia toda a extensão do Rio Cuniuá, onde o Rio Coxodoá faz margem dos dois lados. As armas e doenças do homem branco causaram muitas mortes, mas (eu também me) lembro das lutas entre os próprios subgrupos, que ficaram conhecidos como Kamuvari, matadores dos grupos Varasa Deni e Huve Deni.”

Os Deni definem como seu habitat tradicional a planície dos Rios Purus e Juruá, afluentes do Rio Solimões (Amazonas), entre o Rio Cuniuá, afluente do Rio Purus, e o Rio Xeruã, afluente do Juruá. Os Deni do Rio Xeruã vivem em quatro aldeias, todas próximas às margens do rio. A população Deni do Rio Cuniuá está concentrada em cinco aldeias perto das margens do Cuniuá. É uma área coberta por densa floresta, com árvores como muratinga, copaíba, jacarandá, pau-rosa, cedro, iatuba, louro, samauma e virola, que possuem alto valor comercial no mercado madeireiro. Ao longo das margens dos rios, palmeiras como o “açaí” dominam a vegetação.

A sobrevivência das comunidades Deni depende da preservação do meio ambiente. Isso significa que eles são habilidosos e fazem bom uso da totalidade de seus habitats, favorecendo a recuperação da fauna e da flora, e da proliferação das espécies. A ocupação das aldeias Deni mostra um extraordinário discernimento do meio ambiente, com ênfase na drenagem e a proximidade de pomares naturais, com “pupunheiras” (palmeiras) e bananeiras.

Nas proximidades da floresta primária, pequenas quantidades de matéria prima podem ser encontradas e os riachos são explorados pelos pequenos “timbós”. Não há áreas livres contínuas: a região é uma mistura de florestas primária ou secundária em estado de recuperação avançada - esta última criando uma nova fauna e flora, onde a proliferação de espécies vegetais gera uma nova fonte de alimentos.
Os Deni dependem da floresta para seu sustento: através da caça, da pesca, das atividades extrativas e da agricultura. Por causa do baixo potencial agrícola do solo da floresta, os Deni equilibram sua dieta com a flora e a fauna selvagens, encontradas abundantemente em sua terra.

A agricultura é a principal prática de subsistência dos Deni. Mandioca, milho, cará (uma espécie de raíz), banana, abacaxi, urucum (pigmento vermelho), timbó e palmito, como a pupunha, são produzidos em processos rurais, que envolvem a preparação do solo, queimada e plantio. A preparação da área comum é feita coletivamente. Depois da queimada, pedaços de terra são distribuídos entre as famílias, que se tornam responsáveis pelo plantio e colheita.

Durante as caçadas (individuais e coletivas), os Deni usam rifles e arco e flecha para capturar animais de grande porte, e sarabatanas (arma de sopro) e dardos para caçar passarinhos e pequenos animais. As frutas selvagens são colhidas principalmente durante a estação de chuvas (o “inverno” amazônico), entre dezembro e maio. Normalmente, as tarefas são cumpridas individualmente, mas alguns esforços cooperativos são feitos para acelerar, por exemplo, a fabricação das redes de pesca.
Dificuldades geográficas, como a baixa produtividade do solo, altas temperaturas, chuvas fortes e contínuas, também levaram à ocupação nômade do território, permitindo a recomposição das roças através do ciclo econômico de plantio, colheita e re-plantio.

Dizer que os Deni são nômades significa dizer que a população das aldeias oscila bastante, com pessoas indo e vindo livremente. Por serem nômades, as aldeias são apenas uma agregação de grupos familiares e de famílias. Eles não possuem uma unidade inerente como comunidade. Os chefes são essencialmente os líderes de seus grupos e não da aldeia como um todo. Residentes permanentes podem partir de repente e moradores temporários podem se tornar definitivos.

A divisão de trabalho entre homens e mulheres - os homens na floresta, caçando e pescando, enquanto as mulheres trabalham nas aldeias - e os resultados práticos do cotidiano são aspectos importantes da sociedade Deni. Eles entendem que qualquer um trabalhador tem direito sobre os resultados do trabalho, isto é, o conceito de propriedade comum não é tipicamente Deni.

Aspectos Culturais
O casamento dos Deni acontece de forma bastante simples: os homens empreendem uma atividade, como sair para caçar ou adentrar a floresta à procura de patauá (fruta que produz um vinho semelhante ao açaí); apenas as mulheres e dois homens mais velhos permanecem na aldeia. Os idosos colocam a rede do noivo perto da rede de sua futura mulher. Quando os homens voltam da floresta, o casamento é anunciado. É tempo de festa e fartura, e o novo casal pode dormir junto.

Durante a gravidez, os pais não podem comer ovos e se alimentam apenas de pequenos peixes. Eles devem manter relações sexuais até o último momento, para que a criança nasça forte. As mulheres Deni dão à luz sozinhas, na floresta. Ela corta o cordão umbilical, limpa a criança e a leva para casa. O marido enterra a placenta. A verdadeira criação não acontece até que o pajé (zupinehe) assopre a alma para dentro da criança, dando-lhe a vida. Depois do nascimento, a mãe faz suas refeições sozinha durante dois meses.

O luto pelos mortos é o ritual mais forte entre os Deni. O morto é enterrado em uma rede nova, que nunca toca o chão do túmulo. Sobre o corpo são colocados pedaços de paxiuba (um tipo de palmeira), antes de receber a última camada de solo. Uma estrutura parecida com um mausoléu é construída sobre o túmulo.
Os homens mais poderosos da aldeia são os zupinehe (pajé), os xamãs. De acordo com a religião Deni, eles são responsáveis pela harmonia entre corpo e alma. O xamã pode se comunicar com as almas e seu espírito pode deixar o corpo e viajar. Para curar, o xamã tira “pedras” de seu corpo, que são consideradas espíritos por ele, e as coloca na pessoa doente. Depois, ele as retira através da sucção. Em algumas aldeias Deni, principalmente as do Rio Xerua, não há mais xamãs ou pajés. Epidemias de sarampo são as responsáveis pela ausência destes líderes espirituais.

Mitos
Criação do Universo: os Deni acreditam que a origem das pessoas é um “lagarto falante”. O espírito feminino Mahaniru criou as espécies vegetais “compridas”, como o abacaxi, a mandioca e bananas. O antepassado Nadiha trouxe os vegetais que crescem horizontalmente, como a batata. Mahaniru plantou, despertando nos humanos o desejo de obter comida sem trabalho. Os homens brigaram com os espíritos, ameaçando-os com a morte. Mahaniru fugiu para o céu, levando consigo toda sorte de plantas e deixando os homens famintos para trás. Os homens, então, queimaram a área e, quando o fogo apagou, a muda da mandioca havia nascido. Esta é a origem da tradição agrícola.

A chegada do fogo: Há muito tempo, um homem saiu para caçar uma onça, o único animal considerado maléfico para os Deni. Um pássaro gritou: “Há fogo ali”. Em frente aos olhos do guerreiro, chamas consumiam uma árvore gigantesca. O homem pegou um pedaço de madeira e levou uma amostra do fogo para a aldeia. Ele, então, compartilhou o fogo com os outros, que continua a queimar até hoje.

Celebrações
Os Deni trabalham para festejar e se divertir, para convidar amigos de aldeias vizinhas e para jogar. Os Deni são muitos criativos, verdadeiros especialistas na arte da improvisação. O xamã é o responsável por organizar as festas e de enviar os convites. A celebração mais importante é conhecida como Ima amusinaha, traduzida como “a continuação de uma boa conversa”. O líder distribui as tarefas rituais como idéias, e não como ordens. Alguns indivíduos poderiam caçar porcos selvagens, outros poderiam fazer a colheita ou pescar, e as mulheres poderiam produzir beiju, prato típico feito da mandioca.

O rapé, um alucinógeno suave feito das folhas de tabaco e da casca da árvore pupui, torradas e moídas, é inalado diariamente por homens, mulheres e crianças, desde o amanhecer até a hora de dormir.

História
O Ciclo da Borracha, que se estendeu do fim do século 19 até 1940, foi a principal causa da rápida ocupação ocidental dos vales dos Rios Purus e Juruá e dos consequentes e trágicos desaparecimentos - diretamente ou pela introdução de doenças - de muitas Tribos Indígenas do Amazonas. A economia extrativista da indústria da borracha usou as Populações Indígenas como guias em viagens para pesquisa, como caçadores, pescadores, produtores de látex e como proteção contra outros grupos indígenas hostis.

Uma vez que o rio já havia sido explorado, nada poderia deter o avanço dos ocidentais e sua influência. Grandes barcos navegavam milhas e milhas, trazendo homens em busca de terra e sobrevivência. Era a chegada dos Soldados da Borracha. As primeiras cidades, como Labrea e Canutama, no Rio Purus, e Tefe, no Juruá, começaram a pipocar no meio da selva amazônica.

Durante o boom da borracha, estima-se que a população indígena da região do Rio Purus era de aproximadamente 40 mil indivíduos. Inevitáveis correrias - confronto violento entre índios e colonizadores - ocorreram, principalmente na embocadura dos igarapés (pequenos canais de água), onde o foco de resistência indígena se encontrava com a fronteira extrativista.

Os Deni, considerados produtores rurais e pacíficos, viveram isolados na margem esquerda do Rio Purus, desde a embocadura do Rio Ituxi até o Rio Pauini. Por terem construído suas ocas no meio da floresta, seu contato com a invasão dos colonizadores foi parcialmente bloqueado. Mesmo que alguns índios fossem recrutados como trabalhadores nos seringais (áreas de extração da borracha), suas famílias permaneciam isoladas na floresta. Epidemias e massacres atingiram os Deni, mas seus valores étnicos e culturais foram preservados.

No entanto, a tradicional economia de subsistência dos Deni foi fortemente afetada. O sistema de aviamento, baseado na troca injusta de borracha por bens industrializados, como rifles e sal, deu início a um círculo vicioso de dívidas e dependência, que ainda é encontrado entre os ribeirinhos e patronos envolvidos em atividade madeireira na região. Os ribeirinhos são pessoas que vivem às margens dos rios no Amazonas, normalmente às custas da extração da borracha, pesca e coleta de frutas e, apesar de serem considerados populações tradicionais, eles não fazem parte das Populações Indígenas.

Economia
Com o grande declínio na demanda pela borracha da Amazônia no fim da Segunda Guerra Mundial, os Deni começaram a trocar mandioca, óleo de copaíba, carne e peixe, por produtos como sal e combustível. Alguns homens procuraram trabalho junto à indústria madeireira para sobreviver. Em 1992, uma epidemia de sarampo matou 67 Deni que haviam se juntado às atividades madeireiras.

Historicamente, o objetivo das frentes de colonização era transformar as populações indígenas em produtores para a economia da região. Por isso, qualquer elemento em favor do fortalecimento de mecanismos que visam garantir a sobrevivência de grupos indígenas como sociedades autônomas, com identidades culturais intactas, vem sendo visto sistematicamente como um obstáculo.

Atualmente, o Rio Cuniuá é praticamente desabitado, exceto pelos Deni. As únicas atividades comerciais são praticadas em escala baixa e predatória: extração do óleo de “copaíba”, derrubada de árvores e pesca. Nos últimos anos, os Patronos mais ativos têm sido Raimundo Acreano, e Zena e Tião, que desenvolveram um sistema de comércio com os Deni altamente explorador, seguindo o modelo dos empresários do ciclo da borracha do século passado. Em 1995, a única fonte de recurso financeiro remanescente na região provinha da extração de madeira. Madeireiros, patronos, regatões, intermediários e comerciantes de Manaus, que vendem madeira para companhias brasileiras e multinacionais, estão agora envolvidos em atividades na região do Purus. Dentro das terra Deni, há muitas árvores de alto valor comercial, como jacarandá e pau-rosa. Com a super-exploração de muitas áreas, os madeireiros procuram cada vez mais pelas terras Deni como fonte de sua indústria insaciável. Pequenos grupos de madeireiros predatórios já invadiram suas terras e, sem medidas de controle, sentem-se seguros para seguir adiante.

Além da destruição dos recursos naturais, a invasão da indústria madeireira também abriu as portas para outras epidemias, como a gripe e o sarampo, além de gerar sérios conflitos entre madeireiros e índios sobre o uso da terra, comércio e trabalho. Os Deni, que viviam primeiramente fora da cultura do dinheiro, não sabem como valorizar de forma justa seus produtos e seu trabalho dentro do contexto de nossa sociedade e, como resultado, são constantemente explorados.

De acordo com a cientista social Renata Feno Alves, atualmente, “as Populações Indígenas Deni estão interessadas em aprender sobre o mundo exterior. Alguns querem aprender a ler a escrever. E se queixam sobre a falta de professores”. Ela acredita que “eles podem se beneficiar de sua relação com os brancos, aprendendo a se organizarem e a lutar por seus direitos”.

Por isso, Alves acredita que o contato com os brancos não representa mais um grande risco para os Deni, especialmente por que hábitos como o xamanismo, medicina tradicional e a linguagem estão protegidos. “Com o tempo, eles perderam um pouco de sua cultura ancestral. Eles não usam mais a cerâmica para cozinhar, por exemplo. Eles sabem que é mais fácil usar panelas de alumínio. Isso não significa que as mulheres se esqueceram da arte da cerâmica. No todo, a essência e o modo de vida dos Deni foram preservados”, ela diz.

A demarcação de suas terras é o principal passo para garantir a sobrevivência do Povo Deni. Só então projetos para o desenvolvimento econômico sustentável poderão ser implementados com sucesso, permitindo que os Deni controlem seu próprio futuro e mantenham seu estilo de vida, cultura e crenças.

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